A Não-Tradição e o Ódio à Identidade

Como este é meu primeiro artigo para a Rádio Conservadora, será uma apresentação e
também um artigo de memórias que servirá de uma única vez a dois propósitos: apresentar
um pouco do autor que vos fala, e tratar de um dos maiores problemas de nossos dias a meu
ver.

Sou Phellyp Martins, 20 anos, católico, estudante de filosofia pelo Curso Online de Filosofia do
professor Olavo de Carvalho. Fui aluno da Universidade Federal do Maranhão também no
curso de filosofia no primeiro e segundo semestres do ano de 2016, que abandonei pelo bem
da minha sanidade e inteligência.

No começo do presente ano, ainda no mês de janeiro, mudei-me para São Paulo de onde
agora escrevo esse artigo, e é daqui que dou o ponto de partida para o tema dessa exposição.

Desde que vim para São Paulo tenho passado por grandes aflições, e não é para menos.
Morando no centro onde toda a degeneração que se espalha e toma conta do país nasce, seria
preocupante se não houvessem essas aflições que, modéstia à parte, interpreto como um sinal
visível de que ainda preservo minha sanidade nesse mundo governado por loucos.

O motivo principal por trás dessas aflições é, sem sombra de dúvidas, a cultura musical que
por aqui é predominante: o “funk” – entre aspas porque sequer considero que isso seja música
e acho que é demasiado ofensivo chamar de funk esse lixo que nada tem a ver com o funk
americano de James Brown.

A exposição forçada a esse lixo cultural tem feito com que constantemente me pegue a pensar
sobre minha infância, quando ia com meu pai para a fazenda dos nossos amigos, ou mesmo
para as pescarias às margens dos rios Araguaia e Xingu no sudeste do Pará.

Contava meus dez anos de idade e ia à fazenda com meu pai e nossos amigos quase todos os
fins de semana. Era uma ocasião sempre muito festiva e alegre, embalada por muita música
tradicional do campo, churrasco e cerveja. Lembro-me especialmente de um disco gravado
pela dupla Edson e Hudson, no ano de 2007, chamado Na Moda do Brasil. É um DVD com 14
faixas, todas músicas tradicionais, de um período que vai dos anos de 1950 até 1990. Música
sertaneja, principalmente as modas de viola. Dentre as faixas haviam: “As Andorinhas
Voltaram”, “Ainda Ontem Chorei de Saudade”, “Do Mundo Nada se Leva” e as duas últimas
que cito são “Bobeou… a Gente Pimba” e “Bicho Bom É Mulher”, e ao fim desse artigo o leitor
irá entender o porquê.

Vamos ao que interessa de fato: qual meu objetivo contando essas memórias e fazendo
propaganda gratuita para a dupla – que eu particularmente lamento que tenha sumido do
cenário musical sertanejo? O objetivo, queridos, é a simples comparação das condições
culturais nas quais nós nos encontramos atualmente em detrimento do que já tivemos noutros
tempos.

Dos nove aos onze anos de idade essa era a esfera cultural na qual eu estava inserido. Não via
a hora do fim de semana chegar para que eu pudesse ir para a fazenda andar a cavalo, comer
churrasco e ouvir essas músicas. Era o auge dos meus dias naquela época. Sentávamos à mesa
que ficava em baixo de uma árvore frondosa junto com a churrasqueira, meu pai e seus
amigos sempre bebendo cerveja, contando causos da fazenda e da vida no campo, piadas, e
alguns casais dançando ao som das modas de viola. As modas mesmo, muitas vezes, contavam
também causos da vida no campo, as paixões dos vaqueiros e até mesmo sobre a fé católica –
que naquela época não era a minha fé nem a fé de meus pais. Mas estávamos lá, ouvindo
“Saudade da Minha Terra” que cantava “por Nossa Senhora, meu sertão querido, vivo
arrependido por ter te deixado”. E que sensação gostosa me dava, ainda aos dez anos, ouvir
aquelas histórias… A cada fim de semana, a cada churrasco sob aquela linda mangueira, eu
conhecia mais sobre meu país, sobre as tradições familiares do meu povo, sobre a fé que
fundara minha nação. Tudo ali, comendo aquelas gordurosas picanhas e ouvindo as modas
sertanejas.

Como não me deixar afligir, querido leitor, ao lembrar-me de tão áureos tempos em
detrimento da miséria cultural na qual me vejo cercado no ano de 2017 – apenas dez anos
passados desde que vivi essas maravilhosas experiências no interior do país? Como não se
abater com a tristeza, nos vendo cercados por letras que explicita e miseravelmente tratam de
temas tão baixos e todo tipo de devassidão e animalidade?

Algo que logo aprendi com meu querido professor Olavo de Carvalho, é que a primeira coisa a
se fazer quando nos damos de cara com um problema, é nos identificarmos no cenário.
Precisamos, antes de mais nada, nos posicionar no quadro geral. Onde estamos? Qual a
posição que ocupamos dentro desse quadro deplorável? E é aqui que nos encontramos:
cercados de tamanha miséria e tamanha brutalidade contra as consciências.

Nosso lugar diante do problema é o de um povo rico em tradições, em cultura, em história. E
que sistematicamente está sendo levado a trocar estas tradições e cultura pelo que se
pretende que seja uma nova cultura e uma nova tradição: a cultura do sexo e a tradição da
prostituição. A cultura da baixeza, da animalidade. Estamos sendo pouco a pouco levados a
trocar nosso passado por um presente cada vez mais atomístico, onde a marca principal é a
falta de tradição, onde nada dura mais que um verão – e a cada verão um hit novo, que trata
de temas diferentes do que os hits do verão passado, e cada vez mais baixos.

Enquanto que as músicas do passado tratavam de questões como o sofrimento da vida no
campo, a saudade de casa, a saudade e a perda do grande amor, a esperança baseada na fé de
tempos melhores, da união familiar apesar das tribulações, às vezes até mesmo na pobreza e
na falta do que comer, hoje quais os temas das músicas que tocam nas rádios, nos carros, nas
festas? Tratam de quão bêbados devemos ficar a cada nova “balada”, das miudezas do ato
sexual, de quantas bocas devemos beijar a cada noite e até mesmo de como seria a melhor
forma de organizar orgias e afins. Às vezes duvido até de que os revolucionários de 1968
esperassem que seus intentos dessem tão certo.

E aqui, leitor amigo, volto a tratar de duas musicas em especial que estavam na playlist dos
churrascos na fazenda: “Bobeou… a Gente Pimba” e “Bicho Bom É Mulher”. Volto a essas
músicas pra ilustrar o abismo que há mesmo quando tratamos das musicas sensuais daquela
época e das músicas de hoje. Peço gentilmente a você que me lê, que busque por esses títulos
no Google e dê uma olhada nas suas letras. Em seguida vá ao YouTube e busque por “funk”.
Ao pesquisar por “funk” no YouTube você irá ser apresentado a uma playlist chamada “Funk
Carioca”. Ouça apenas a primeira faixa e faça uma comparação. Veja o abismo que há até
mesmo entre a sensualidade nas músicas tradicionais, e a vulgaridade das músicas a que
nossas crianças e adolescentes estão sendo criminosamente expostos nos nossos dias.

A música de uma época retrata as preocupações, o pensamento, os valores e a consciência da
geração que a ouve.

Quais as preocupações, o pensamento, os valores e a consciência da nossa geração? Qual o
futuro dessa geração?

Já aconteceu conosco uma vez algo extremamente grave: se apagou da memória comum a
existência de uma alta cultura e restou apenas uma única pessoa capaz de fazer a ponte entre
o que foi perdido e as novas gerações, e essa pessoa foi Olavo de Carvalho. Não podemos
permitir que agora também seja apagada dessa memória comum a existência de uma cultura
popular que transmite as tradições de nossa terra, os valores e a fé de nosso povo. Não
podemos e não devemos deixar que se chegue ao ponto de que só reste, novamente, uma
pessoa capaz de impedir que esse legado histórico e cultural se perca de uma vez para sempre.

Não podemos mais relegar à sorte o que tem de ser nosso dever moral e cívico.

O que está em curso no nosso país é uma campanha de ódio à identidade nacional, à
destruição de tudo aquilo em que se baseia a noção de o que é ser brasileiro.

E somos nós, brasileiros, que devemos guerrear contra essa agenda maléfica. Não poderia ser
de outro jeito.

Um comentário em “A Não-Tradição e o Ódio à Identidade

  • 7 de outubro de 2017 em 15:17
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    As recordações familiares em ambiente longe da cidade, são as mais marcantes em todos, creio eu… hoje em dia nos deixamos hipnotizar com muita coisa supérflua.
    Excelente, Phellype

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