Carlos Andreazza, “nosso conservador hamletiano”

Rafael C. Libardi
Rafael C. Libardi

Por favor, leiam o último artigo do Carlos Andreazza. Vale a pena; vale a pena ver como a inteligência pode ser tragada por uma prepotência burra que presta louvores à desonestidade. Há tantos argumentos estúpidos ao longo do texto, e tão envoltos em erros elementares de lógica, que poderíamos supô-los escritos por um aluninho colegial da Geração Z. Mas não se enganem: nele, Andreazza pensa como Hamlet, isto é, como o louco com método.

Segundo nosso conservador hamletiano, Jair Bolsonaro “nunca geriu algo que não a vida dos filhos”, o que o tornaria, automaticamente, uma alternativa inviável para o país. Estranho. Churchill foi socialite e militar antes de se tornar Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. Antes disso, porém, comandou a desastrosa campanha de Galípoli, que resultou em centenas de milhares de mortos para as tropas aliadas. Talvez não tenha sido uma boa demonstração de gestão, não é mesmo? Reagan, por outro lado, era um ator de Hollywood que, antes da presidência, teve como única experiência pública o governo da Califórnia. Como governador, promoveu um aumento histórico de impostos para contra-balancear o déficit orçamentário deixado pelo antecessor. Estatista? E o que dizer de De Gaulle, um militar puro-sangue, general, nacionalista, que também nunca havia tido qualquer experiência política antes de se tornar Primeiro Ministro da França? Ora, são esses três grandes nomes da “direita” que assumiram a chefia de seus países em épocas de extrema tensão. E, como se nota, não consta que tivessem o selo IsoDoriana de qualidade administrativa…

Mais adiante, o “conservador com lastro” diz que Jair é deputado federal desde 1991, embora a agenda progressista tenha “avançado livremente na Câmara justo no período mais histérico de Bolsonaro”. Bem, talvez nosso amigo hamletiano tenha esquecido de dizer que o Congresso é hegemonicamente… progressista! Difícil, portanto, conseguir os 257 votos necessários para a aprovação de um projeto se você não participa das falcatruas que correm soltas na casa e se você não se alinha ao discurso dominante. De qualquer modo, Bolsonaro tem 171 projetos apresentados, dentre eles deduções e isenções de impostos, tratamentos de saúde, castração química para estupradores, impressão de votos, porte rural de armas, crimes hediondos, bloqueio do uso de celulares em presídios, pena mínima de 10 anos para três crimes sucessivos, direito de defesa na propriedade urbana e rural, aumento de pena para estupro contra vulnerável e não-vulnerável. Fora isso, é notória sua atuação nas comissões do Congresso que tratam de temas típicos da agenda progressista, como aborto, drogas, desarmamento, lobby gay, doutrinação, etc. Culpá-lo pelo avanço do politicamente correto, por conseguinte, é coisa de gente mal informada ou trapaceira.

Na sequência, Andreazza usa uma série de acusações genéricas, que vão desde falas antigas de Jair até o mote que vem repetindo pelancudamente com dedos em riste: o tal “histórico de indisciplina — de desafio à hierarquia — militar de Bolsonaro”. Por esse raciocínio, deveríamos supor que as pessoas são imutáveis; que ninguém amadurece; e que ninguém erra. Um pensamento bem anti-cristão, na verdade, e bem inadequado a alguém que procura uma pureza ideológica quase idílica. Logicamente, sabe-se que se A é B com C, não necessariamente será B com D; fórmula simplória que nosso louco com método decidiu jogar fora sem dó. Assim, a tal indisciplina juvenil de Bolsonaro tem tanto a ver com a presidência quanto o argumento de Andreazza o tem com a realidade, a saber: nada.

Já caminhando para o fim, ele parece bravo com a honestidade de Jair. Diz: “Ele é plano, direto: contra a corrupção; tipo intolerante a nuances, como só possível a um ser desprovido de lastro intelectual”. É uma fala que estamparia perfeitamente bem um texto de um, digamos, Leonardo Attuch, ou Luís Nassif, mas ela está mesmo no artigo de um auto-proclamado representante da “direita pura”, o que, convenhamos, só “interdita o surgimento de uma direita democrática e que legitima a persistência da esquerda que ainda ousa associar socialismo e liberdade”, como diz o próprio. Mas como todo bolo arrumadinho vem com uma cereja em cima, Andreazza também finaliza seu doce com a vermelhinha. “E daí que seu voto seja presente aos esquerdistas que propagandeia combater?”, começa o doceiro, “É o preço que paga todo arrivista. E ele sempre poderá se escudar na canalhice segundo a qual votou como Jandira e Jean, mas por motivos diversos”. Entenderam? É canalhice votar por concepção moral quando alguém vota por malandragem política; ou melhor, é canalha aquele que não condescende com a imundície e insanidade dos socialistas. Assim, no conceito do editor, se eu e Lula preferimos Burger King a McDonalds, logo nossos gostos são iguais; e também holandeses e comunistas são moralmente semelhantes porque lutaram juntos contra a invasão nazista da Holanda. Do contrário, eu e holandeses seríamos canalhas, é claro, porque não podem existir “motivos diversos”.

Enfim, o texto de Andreazza é enjoativo e controverso. É a cara do dono; a cara dos conservinhas que nomearam a si próprios como os éforos do conservadorismo, como os sacros jurisconsultos da “direita”, como o protetorado onde o verdadeiro direitismo ainda pulsa. E quando você termina de ler, fica uma certeza: o chefão da Record certamente faltou às aulas de falácias e de honestidade intelectual. É uma pena. Verdadeiramente, uma pena.

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O Jair tem defeitos que já apontei várias vezes por aqui. É desarticulado e isso é usado contra ele na maioria das vezes, como nos casos Villa e Maria do Rosário. Também acho sua formação cultural precária e penso que ele poderia se desvincular daquela aura militar. Penso, também, que ele não aproveitou os últimos quinze anos para montar um partido e construir uma base de apoio mais ampla e mais consistente. Poderia, inclusive, ter articulado com a Casa Imperial. Nada disso, porém, o impede de enxergar a realidade, como de fato enxerga. E nada disso lhe tira a honestidade, a boa vontade e, importante dizer, o apoio dos mais letrados.

Fonte: Rafael C. Libardi