A Bíblia e os Direitos Humanos

O Sermão da Montanha de Jesus Cristo foi certamente um pilar para a construção de um novo sentido de humanidade na civilização ocidental como a conhecemos. No final do século IV, Santo Agostinho, em suas reflexões sobre o sermão, destacou que as palavras de Jesus trouxeram ao homem um novo patamar da ética, um novo padrão de normas elevadas, alicerçadas na pureza de coração de quem busca a perfeição da santidade cristã. A partir desse novo conjunto preceitos universais de relações entre pessoas, firmou-se os fundamentos do que hoje nós conhecemos como direitos humanos.

São frequentes tentativas de se ocultar a influência da Igreja na formação do conceito moderno de humanidade. Porém, é inegável sua fundamental importância para a universalização de preceitos morais e éticos, antes praticamente inexistentes. Na Antiguidade, as relações entre pessoas e povos baseavam-se na força. A vingança, a pena capital, a desapropriação eram práticas recorrentes de aplicação da justiça. Até mesmo a escravidão era justificada por lei sob inúmeros pretextos.
  Porém, a partir de Cristo, a humanidade ganhou um novo rumo, não mais baseado em leis, mas no senso de justiça do próprio Deus. Foi sobre o solo da Igreja que se semeou o conceito de universalidade da dignidade da pessoa humana. Os escritos apostólicos do primeiro século presentes na Bíblia celebram de forma categórica a indistinção entre povos, entre homens e mulheres, tornando todos um só em Cristo.
 É também na Bíblia que estão presentes os fundamentos para que, posteriormente, a Igreja viesse a ser a instituição que mais lutou contra a escravidão no mundo, apesar das inúmeras acusações infundadas dizerem o contrário. Na carta a Filemon, o apóstolo Paulo o pede para que receba seu escravo fugido Onésimo com dignidade e o trate como um irmão em Cristo, sugerindo sua libertação. Posteriormente, desde o século XV, são incontáveis os documentos oficiais da Igreja sugerindo aos governantes que não aceitassem mais a escravidão de qualquer povo.
 Foi a partir desses preceitos que a Declaração Universal de Direitos Humanos, celebrada em 1948, firmou uma espécie de ética universal cristã sem Cristo. De modo similar a declaração de 1789. Em todos os seus artigos, de uma forma ou de outra, manifesta-se a necessidade de uma humanidade que trate as pessoas com mais dignidade, caridade, tolerância e respeito. Entretanto, deturpando o sentido de alguns valores universais, negligenciando aquela que foi a instituição sobre a qual se firma esses valores, não os acatando totalmente e, invariavelmente, se voltando contra a própria Igreja para defender atentados contra a vida, como aborto, eugenia, eutanásia etc.